Costumes
Acostumar é infernal. Na verdade, é divino, mas pode ser infernal.
Acostumar é infernal. Na verdade, é divino, mas pode ser infernal.
Outro dia, me peguei pensando sobre o quanto as coisas e as pessoas se tornam familiares pra nós, e sobre como o processo inverso também acontece, na mesma proporção.
Convivo e falo com você todos os dias. Te vejo quase sempre. Seu rosto, sua voz e suas expressões são parte da minha rotina. O jeito de responder, abraçar ou olhar. Essas coisas da vida comum ficam marcadas, já concluiu o Roberto.
É sabido que o ser humano acostuma com quase tudo, inclusive com o que é ruim, e aí talvez esteja o inferno. Objetos se tornam familiares, assim como pessoas. É do ser humano atribuir sentimentos e comportamentos humanos às coisas não humanas. O que posso fazer?
A gaveta arrumada de tal forma. O porta escovas na cor que você gosta. O tênis quase furado. A camisa de todos os dias deixada de lado. O prato sujo na pia. Na casa, em silêncio, posso testemunhar os detalhes. A altura certa da cortina fechada. O alinhamento do sofá. Os enfeites tão desnecessariamente necessários.
Os objetos tocados por alguém se tornam memórias ambulantes e memórias podem machucar. Se uma pessoa se vai, os objetos e as memórias ficam, e estes podem ser divinos ou infernais.
O tempo do relógio não acompanha o tempo da saudade e da memória, já sabemos.
Ver e imaginar a ausência dói. É do ser humano sofrer do imaginário.
Deus e o diabo moram nos detalhes, e é nos detalhes que se formam os nós. É através deles que nos familiarizamos, nos apegamos, resistimos e nos enganamos.
Portanto, é preciso desatar os nós. Afrouxe primeiro. Não puxe com força. Use ferramentas finas. Os dedos, se preferir. Empurre através do nó. Uma parte de cada vez. Use, talvez, um jogo de palavras: são muitos os nós sobre nós.
Fale das poucas palavras, das coisas simples que dizemos, antes de dormir. Do bom dia na cama, da conversa e do jornal. Nuances do hábito. É aí que mora o busílis da paixão1, bem disse a Noemi. E do inferno, e do divino. Não seriam o mesmo?
Enquanto o algoritmo não vem
Drops Drops Drops - “Enquanto eu não aprender que as únicas respostas possíveis são “Tudo bem” ou “Infelizmente para mim não vai ser possível”, minha vida vai continuar esse inferno” - da Fal Vitiello de Azevedo
Poema 08 - “quando eu morrer / quero ser lembrado como aquele / que transformou em arte / o corriqueiro ato de caminhar / na corda bamba” - da Andreza de Lucena
#127 - uma idade branca - “não era desbotado, não era esmaecido, não era descolorido, não era pálido; era branco” - do pedro rabello
Você sabia que o Mais Uma Opinião virou livro?
Escolho começar frustrando todas as expectativas: ensaios, contos e mais algumas opiniões é uma coletânea de textos escritos ao longo de mais de uma década.
São 29 ensaios/crônicas e 09 contos, publicados no período de janeiro de 2014 a março de 2026.
O livro pode ser adquirido aqui: https://a.co/d/05fHMOP5 (o acesso pelo Kindle Unlimited é gratuito).
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Só li verdades! Muito boa essa edição, Rodrigo!
Lembrei de uma pesquisa que li na revista Galileu há mil anos atrás, quando nem existia internet (eu acho) que concluía que uma pessoa que ganha uma fortuna e uma pessoa que fica paraplégica, em um ano, estão no mesmo estágio de conformidade. Eu fiquei embasbacada quando li isso.
No final das contas, a gente se acostuma.
Obrigada pela indicação, Rodrigo! 🌞